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Coordenação

Susana Sardo

 

Financiamento

FCT
ref: PTDC/EAT-MMU/102624/2008

 

Resumo

Os estudos de Jazz (Jazz Studies) constituem hoje um domínio académico emergente em Portugal à semelhança do que acontece noutros países da Europa e, sobretudo, nos EUA. Na verdade, a escolarização do Jazz, com uma enorme tradição na Europa, e a preocupação que outras disciplinas académicas têm mostrado sobre o universo expressivo associado ao Jazz– como a sociologia, a antropologia, a etnomusicologia e os african-american studies - têm vindo a tornar cada vez mais urgente um maior conhecimento sobre o universo social, político e musical associado a este género de música que emerge a partir dos EUA no início do século XX. 

Neste sentido, e uma vez que o Jazz sobreviveu durante muitos anos num espaço social de alguma “marginalidade”, múltiplos debates têm vindo a reconhecer a importância dos divulgadores de Jazz – aqui entendidos como os intermediários entre os conceitos e comportamentos associados ao Jazz e o público e as instituições – na aceitação e na consolidação desta prática expressiva.

Em Portugal os divulgadores de Jazz foram centrais no caminho para a inscrição deste tipo de música no panorama musical do país, tanto mais que o regime ditatorial que se instalou desde 1933 era, por princípio ideológico, extremamente hostil à presença do Jazz. Os divulgadores, onde se incluem jornalistas, críticos de música, melómanos, organizadores de concertos e festivais, fundadores de escolas de Jazz, abriram caminho para o conhecimento que se foi construindo sobre Jazz e, por inerência, foi da sua exclusiva responsabilidade o percurso que o Jazz acabou por fazer até se instalar no nosso país e dar origem a uma “escola de jazz português”.

Os primeiros artigos sobre Jazz publicados em Portugal datam da primeira metade da década de 1920. Trata-se de crónicas e/ou artigos de opinião sobre Jazz, então designada por Música Hot, Hot Music ou Jazz-band, inscritas em periódicos como ABC, ABCêzinho, A Tarde, Ilustração Portuguesa, Diário de Notícias ou Diário Popular e assinados por Ferreira de Castro (1925), António Ferro (1924), Almada Negreiros (1925), Repórter X (1926) ou Triska (1926). Mas é durante a década de 1950 que se virá a consolidar um trabalho recorrente de divulgação do Jazz através da acção de Luiz Villas-Boas, Raul Calado, Francine Benoît, Manuel Guimarães, Manuel Jorge Veloso, José Duarte, Paulo Gil, e Romano Mussolini e dos artigos regulares que escrevem em periódicos como Arte Musical, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Século.

Para além do papel desempenhado enquanto críticos e cronistas na imprensa, estes divulgadores foram ainda protagonistas de outras iniciativas centrais para a história do Jazz em Portugal, designadamente a fundação do Hot Clube de Portugal por Luis Villas Boas (1948), a organização do concerto de Count Basie em Lisboa (1956) a fundação do Clube Universitário de Jazz por Raul Calado (1958), a implantação do programa radiofónico Jazz, esse desconhecido, na Rádio Universidade de Lisboa por José Duarte (1958), a estreia na Rádio Televisão Portuguesa do TVJAzz, o primeiro programa de televisão inteiramente dedicado ao Jazz por Manuel Jorge Veloso (1958) e a edição do 1.º Festival Internacional de Jazz de Cascais (1971).

Em 1976 o disco Malpertuis, de Rão Kyao, inaugura uma nova fase na divulgação do Jazz em Portugal: a produção nacional de Jazz. Esta iniciativa abre caminho para um grupo de músicos que se virá a afirmar nas décadas seguintes. Neste contexto, os divulgadores passaram a dedicar-se à divulgação do jazz produzido em Portugal por músicos portugueses. Os principais periódicos nacionais contrataram colaboradores especializados ao mesmo tempo que a rádio e a televisão inauguraram programas regulares sobre Jazz.

Podemos considerar que a última fase da divulgação do Jazz em Portugal se iniciou nos últimos anos do séc. XX, com a entrada do Jazz no universo cibernético. O site jazzportugal (1997-), da autoria de José Duarte, foi seguido por uma miríade de espaços cibernéticos sobre Jazz que vieram a operar transformações assinaláveis na opinião pública portuguesa, permitindo ao cidadão anónimo a divulgação das suas opiniões.

De acordo com o contexto descrito, este projecto tem como objectivo geral a inauguração de uma área central para a compreensão do fenómeno do Jazz em Portugal no século XX: a criação de um projecto seminal no quadro dos estudos de jazz. Assim, são objectivos específicos deste projecto produzir conhecimento analítico a partir da documentação dispersa sobre a presença do Jazz em Portugal no século XX; dar a conhecer o modo como o Jazz se implantou no país a partir dos seus divulgadores (intermediários), colocar Portugal no panorama internacional sobre o conhecimento associado à recepção do Jazz na Europa durante o século XX.